A Confiança e o Paradigma 4.0

A confiança é um elemento essencial nas relações económicas e na banca, em particular. O paradigma 4.0 é o contexto em que hoje vivemos, o qual altera quer o modo de transmitir confiança, quer as formas como a mesma é percebida por parte dos consumidores.

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Neste artigo analisar-se-á os impactos que o paradigma 4.0 tem na banca, assim como as alterações na configuração de confiança entre a empresa e o consumidor. Para o efeito, definir-se-á os conceitos de confiança e de paradigma 4.0. Depois efetua-se um diagnóstico e por fim estabelecem-se perspetivas futuras para o tema.

Definições

Segundo o dicionário Houaiss, Confiança é uma crença na probidade moral, na sinceridade afetiva e nas capacidades profissionais de outrem. É a perceção que torna incompatível imaginar um deslize, uma traição ou um desempenho incompetente. Quando existe nos negócios, as transações económicas são facilitadas e tornam-se mais baratas, visto que tanto o consumidor como a empresa não têm que se envolver em analises dispendiosas para assegurar a transação e a sua segurança.  Apresentada a definição, torna-se evidente a razão pela qual esta é tão importante no contexto dos negócios e, em particular na banca, a quem os clientes confiam os seus recursos financeiros

O Paradigma 4.0 deriva da revolução industrial 4.0, que teve origem no surgimento dos sistemas de informação, no desenvolvimento das telecomunicações e na consequente capacidade para o tratamento e difusão de massivas quantidades de informação. Alargando os impactos destas inovações disruptivas para a esfera global da sociedade, obtemos o paradigma 4.0 que é constituído pelo conjunto de conceitos e pressupostos que definem e permitem analisar a sociedade atual, em todas as suas dimensões. Como exemplo enumera-se o conceito de sociabilização, onde é obvio o impacto deste paradigma, devido à invenção das redes sociais.

Diagnóstico

Uma mudança de paradigma tecnológico é sempre geradora de muitas oportunidades para inovação disruptiva, fundadas ou derivadas da nova tecnologia. Essa realidade tem colocado sobre enorme pressão os modelos e negócios tradicionais, principalmente em empresas de grande dimensão, como é o caso dos bancos.

Segundo Clayton M. Christensen as grandes companhias estão menos preparadas para este tipo de inovação disruptiva porque “enfermam” do Dilema do Inovador, que se caracteriza por uma forte capacidade para inovar na continuidade e uma incapacidade de identificar, integrar e desenvolver inovação disruptiva normalmente originada em pequenos, e inviáveis no curto prazo, segmentos de mercado.

É esta realidade que potencia o surgimento das fintech. Estas novas empresas do ecossistema financeiro estão, como o próprio nome indica, fundadas em inovação disruptiva baseada em tecnologia e estão a concretizar oportunidades que vão desde as simples transações ao aconselhamento financeiro; e fazem-no com uma velocidade e custo que ameaça seriamente o modelo de negócio dos bancos tradicionais.

A desmaterialização é outra das consequências deste novo paradigma. Hoje os serviços financeiros requerem menos interações pessoais e menos contacto com evidencias físicas dos serviços como o acesso através de agências. O impacto da desmaterialização na geração de confiança é bastante elevado, uma vez que esta é muito influenciada pelas relações humanas.

Por outro lado, o consumidor alterou os seus hábitos de consumo, ao incorporar as vantagens e facilidades que o paradigma 4.0 lhe tem proporcionado; e está assim bastante disponível para acolher as referidas inovações. Contudo, principalmente as gerações mais velhas, tem um problema: a falta de confiança em organizações sem um rosto e uma localização física para os atender.

A importância da experiência física, que se traduz em lojas, ou no caso da banca, em agências, para o estabelecimento de relações com os clientes e para a perceção de uma experiência positiva, de valor acrescentado e indutora de confiança está amplamente provada nos negócios. Em tempos, pensou-se que o digital eliminaria as lojas físicas, mas hoje sabe-se que tal não deverá acontecer, pois se assim não fosse, porque estaria o gigante Amazon a abrir lojas de retalho, quando o seu negócio começou e é essencialmente internet.

O que pretende o consumidor é que os produtos e serviços estejam disponíveis com a mesma qualidade e variedade na maior quantidade de canais de distribuição possível (entenda-se por canal as distintas formas de interação entre empresa e consumidor que permitem transações, ex.: retalho, internet, telefone, mail). A esta múltipla e permanente disponibilidade na maioria dos canais chama-se omnichannel. A vida exigente, sem tempo e com múltiplas solicitações, não permite um padrão de preferência por um tipo de canal. Por razões de conveniência, todos os consumidores compram em todos os canais, função do que a cada momento lhes é mais conveniente. Neste particular, as fintech, frequentemente, não apresentam ao mercado, locais físicos para contacto com os consumidores; apresentando por isso uma desvantagem competitiva.

A confiança na banca deriva de múltiplos fatores congregados na imagem de marca. Arrisco-me a afirmar que os fatores que atualmente mais alterações provocam à perceção de confiança são a redução das interações humanas e a fiabilidade dos sistemas de informação, onde estão suportadas a esmagadora maioria das atuais interações entre clientes e empresa.

A banca, apesar de todas estas alterações, é um setor onde a confiança nas instituições e nas marcas é elevada, apesar da crise mundial. Exemplo disso mesmo é a credibilidade reconhecida aos seus sistemas de informação, em comparação com a alternativa disruptiva que é o blockchain, o qual, embora seja um algoritmo reconhecidamente potente, os sistemas onde se desenvolve não são fiáveis. O facto de ser uma atividade fortemente regulada e supervisionada também contribui positivamente para a perceção de confiança; embora não seja diferenciador, uma vez que é comum a todo o setor.

Pelo exposto, pode afirmar-se que a confiança, a fiabilidade dos sistemas de informação e a possibilidade de acesso físico (embora esta última com menos e decrescente importância) constituem fatores diferenciadores da banca tradicional. Estes fatores que hoje são elementos diferenciadores podem constituir um problema no futuro, porquanto criam uma estrutura de custos não compatível com a redução de margens e o aumento da concorrência das fintech que apresentam estruturas de custos altamente competitivas.

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Perspetivas Futuras

Em síntese, os desafios da banca passarão por uma combinação dos fatores identificados: gestão da inovação, pessoas, tecnologia e consumidor; mantendo a relação de confiança que é um elemento diferenciador que tenderá a aumentar de importância neste mundo VICA (Volátil, Incerto, Caótico e Ambíguo).

Em relação à gestão de inovação, Charles A. O’Reilly e Michael L. Thusman propõem o modelo de “organização ambidestra”, isto é, uma organização capaz de extrair todo o valor possível da inovação e continuidade do seu atual negócio e de desenvolver em paralelo modelos de negócios e ideias disruptivas, valendo-se dos seus significativos recursos, mas por via de uma estrutura separada.

As pessoas são um fator crucial para a geração de confiança, mas terão de desenvolver competências para estabelecer e desenvolver relações através de menos momentos de interação física e, por isso com novos modelos de relacionamento.

No que respeita ao fator tecnológico, Klaus Schwab, no seu livro a “Quarta Revolução Industrial” identifica os megatrends para o atual paradigma tecnológico, dos quais se destaca: a inteligência artificial, a internet das coisas, a nanotecnologia e a biotecnologia. Será na identificação de oportunidades disruptivas nestas tendências que o setor deverá identificar novas oportunidades.

O consumidor terá uma preocupação crescente com a segurança, onde a confiança irá desempenhar um papel determinante. Procurará soluções convenientes em termos de acessos e simplicidade de operação; espera aliás esses desenvolvimentos por via das tecnologias anteriormente referidas e, tem como premissa que faz parte deste paradigma 4.0, uma redução do preço dos serviços.

Do meu ponto de vista, a banca enfrenta um dos desafios mais interessantes dos dias de hoje, na necessidade imperiosa de evolução do seu modelo de negócio em paralelo com o estabelecimento e frutificação de confiança, nesta relação desmaterializada e tecnológica; uma vez que esta continua a ser muito relevante para o consumidor e é um fator diferenciador do setor.

  • Artigo escrito e publicado em 2018

Comunicação e o Paradigma 4.0

Comunicação e o Paradigma 4.0

Este paradigma que vivemos, onde a capacidade de tratamento massivo de dados, a sua seleção automática por via de algoritmos que geram relevância para cada um de nós (um dia poderemos vir a construir os nossos próprios algoritmos) aliada à comunicação permanente impacta e gera mudanças profundas na comunicação.

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Temos de comunicar mais e diferente sem perder significado.

Comunicamos com mais frequência, em mais e diferentes meios; pelo que, para mantermos relevância, necessitamos de diversificar os conteúdos e as mensagens que passamos.

Esta realidade coloca um desafio criativo ao marketeer: alargar territórios de marca e aprender a não falar só de si, mas também dos contextos dos referidos territórios. Caso contrário será muito difícil desenvolver conteúdos diversificados e interessantes e, tornamo-nos “chatos”.

Esta situação é simultaneamente um problema e uma oportunidade, quer para criar marcas mais fortes, quer porque gera um novo conjunto de serviços que não existem normalmente nos stakeholders de comunicação tradicionais.

Esta facto dinamiza o empreendedorismo e a economia; pois o modelo tradicional está desenhado em estrutura e custo que torna inviável a resposta a tanta e diversa comunicação.

A resposta para o desenvolvimento de novos modelos está nos mesmos pressupostos que geram a alteração na comunicação, isto é, os novos serviços são desenvolvidos com recurso á mesma tecnologia.

Sempre que uma mudança de paradigma cria uma rutura nos modelos instalados, estes têm o desafio de se atualizarem e/ou modificarem, se o não fizerem podem perecer.

O problema é que normalmente não o conseguem fazer dentro da estrutura atual devido ao dilema do inovador.

Um bom exemplo de procura de soluções para as necessidades de novos serviços, por parte de uma grande organização na área da comunicação, surge do grupo WPP em parceria com a Startup Lisboa,   procurando startups que se proponham operar nestas áreas, para que se instalem na sua garagem (estão perto e interligados, mas fora da organização mantendo autonomia e liberdade para o fazer com novos modelos).

Também têm surgido ferramentas do-it yourself que facilitam a vida de marketeers e criativos, tornando mais simples, rápido e barato (pressuposto do Paradigma 4.0. todos esperamos que a tecnologia nos facilite a vida e produza poupanças) editar fotografias, vídeo e texto.

Como dizia o poeta António Gedeão, é assim que “o Mundo pula e avança, como uma bola colorida nas mãos de uma criança”.

Boas férias.

  • Artigo escrito e publicado em 2018

A Marca, um Agregado de Valor a Partilha

A Marca, um agregado de valor a partilha

A Marca é um ativo intangível que agrega valor muito para além dos resultados das suas vendas. O valor intangível da marca reside nas perceções e ações que os consumidores, ou mais genericamente, os stakeholders, têm sobre, ou com, a marca. Indicadores como a notoriedade, a qualidade percebida ou a fidelização, entre outros, permitem medir esse valor.

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Pelo exposto facilmente se percebe que o valor e sucesso de uma marca dependem fortemente, para não dizer primordialmente, do consumidor/cliente. Esta realidade implica que a criação de valor de marca se foque, primeiro em conhecer os seus stakeholders e depois a gerar relevância e diferenciação para estes, através das ferramentas de gestão de marca.

Atualmente conhecer/compreender os stakeholders tornou-se uma tarefa difícil, uma vez que a velocidade de mutação social e a multiplicidade de pontos de contacto que estes têm com a marca, complexificaram e instabilizaram perceções e comportamentos. A revolução digital vem ainda alterar a função social das marcas.

Esta mudança de paradigma torna determinante para as marcas o cumprimento de funções sociais. A ineficácia de organizações e de políticos, conjugada com uma consciência empresarial de necessidade de partilha de valor, muito bem identificada e explicada por Michael Porter e por Philip Kotler, coloca as marcas e as empresas num patamar de credibilidade e de responsabilidade que há muito não tinham. O cumprimento de uma função social é uma oportunidade para alavancar a credibilidade, e por consequência aumentar o valor da marca.

Para aproveitar este valor precioso, as marcas necessitam de transparência nas suas intenções e de realizar ações que realmente partilhem valor.

Esta é uma oportunidade para procurar a diferenciação num papel social, identificando lacunas ou necessidades não preenchidas na sociedade e acrescentar um valor social real que terá de ir além da proposta de valor centrada nos produtos e nos serviços.

Este é um desafio que engrandece as marcas, as empresas e quem nelas trabalha, contribuindo ainda para a mudança da perceção sobre o papel dos agentes económicos na sociedade; tão necessário neste período pós crise financeira.

  • Artigo escrito e publicado em Sfori em 2017

Revolução 4.0

Revolução 4.0

Revolução é uma alteração ou mudança radical relativamente ao passado imediato. Uma revolução pode, segundo o seu conceito científico, ocorrer simultaneamente em distintos âmbitos, normalmente tipificados como: politico, social e económico.

As alterações revolucionárias têm consequências profundas, pois fundam-se numa rutura com o sistema vigente, originando normalmente uma mudança de paradigma. São um processo histórico de construção coletiva.

A inovação disruptiva que causou esta revolução foi, como sabemos, os sistemas de informação e as telecomunicações, que segundo os economistas e outros cientistas sociais que analisam os ciclos longos da economia e da história (cerca de 70 anos), iniciou-se em 1971 e, teoricamente estender-se-á até 2041, temos portanto cerca de 24/25 anos onde o paradigma da informação e telecomunicações será o vigente.

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Fruto da utilização generalizada de alguns termos derivados da informática, começámos a descrever a evolução de acontecimentos ou fenómenos, como se de uma versão de um programa informático se tratasse, daí o 4.0.

Esta “versão 4.0” foi criada na área da Economia, mais propriamente na área industrial com a designada 4ª Revolução Industrial, e no marketing com o Marketing 4.0. Dentro deste paradigma temos assistido a muita inovação que tem originado um fantástico desenvolvimento de negócios, produto, serviços e marcas. Penso que este ciclo começa agora a amadurecer uma vez que a sua aplicação tecnológica se encontra estendida a praticamente todas as dimensões da vida. Um dado que apoia esta minha afirmação o de que 8 das 10 marcas mais valiosas do mundo são deste sector, segundo o estudo da Brand Finance, o que obviamente não acontecia nos anos 70, onde havíamos saído do ciclo dos transportes .

Do ponto de vista Social, é evidente o revolucionário impacto desta inovação na comunicação e relacionamento entre pessoas. A serie inglesa Black Mirror ficciona quais os impactos futuros que este paradigma pode ainda vir a ter.

Do ponto de vista Político a esfera pública vê os poderes e capacidades de intervenção alterados (os media perdem relevância e os cidadãos ganham com o surgimento das redes sociais) e os políticos veem assim a sua atuação mais escrutinada.

Temos pois a missão de continuar a construir coletivamente esta sociedade onde vivemos, para que o futuro seja melhor. Não podemos, contudo, esquecer os aspetos da sua sustentabilidade.

Transformando a frase de Edgar Morin “Ciência com Consciência”, diria que precisamos de “Vivência com Consciência”.

  • Artigo escrito e publicado em 2017

Sabemos Quando Comunicar com o Cliente?

Sabemos quando Comunicar com o Cliente?

Recentemente surgiu na ordem do dia, o tema sobre a comunicação com os colaboradores fora do horário normal de trabalho. Várias notícias e artigos surgiram acerca do ato legislativo francês que confere aos trabalhadores “o direito à desconexão”, e sobre regulação interna de alguma empresas, bem como das iniciativas do governo português acerca do tema.

A minha reflexão não incidirá sobre a relação entre a empresa e o trabalhador, mas na derivação que a ideia me suscitou relativamente à comunicação da empresa/marca com os consumidores e clientes.

O atual paradigma tecnológico aliado à vontade das marcas de construírem valor e de se diferenciarem, leva a estratégias de comunicação mais personalizadas, intensas e frequentes com os seus targets.

Esta comunicação, muitas vezes é desejada, outras vezes não. Quem não foi já incomodado por mensagens e e-mails que não desejava e, mesmo depois de ter ativado a não subscrição, voltou a recebê-los; ou foi repetidamente contacto por um call-center a horas que incomodam, e depois de ter afirmado não estar interessado, voltou a ser contactado pela mesma marca?

Quando se comunicava apenas através dos media de grande difusão (tv, radio, …), os consumidores podiam sempre optar por desligar o mesmo e não ser incomodados; hoje temos sempre, pelo menos, de apagar os e-mails e recusar as chamadas, o que pode provocar uma desagradável sensação de invasão.

Embora exista legislação que pretende proteger o consumidor, sabemos que as leis só por si não resolvem os problemas. Terão de ser as marcas, em minha opinião, a desenvolver critérios que lhes permitam atingir os seus objetivos, sem contudo criar perceções negativas junto do seu target.

O desafio não é fácil, mas é cada vez mais relevante, pelo que convém começar a investir energia, meios e conhecimento na procura de uma abordagem inteligente e distinta.

  • Artigo publicado em 2017

Os Novos Tempos Tendem para os Velhos Tempos

Os Novos Tempos Tendem para os Velhos Tempos

Ao contrário do desenvolvimento tecnológico, que avança com constante inovação, normalmente com objetivo de facilitar a vida humana e/ou de lhe dar mais prazer; a Sociedade começa a procurar, do pondo de vista politico e económico, uma realidade semelhante aos velhos tempos.

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A afirmação anterior não é uma tendência que possa provar cientificamente, antes reside numa intuição fundada em alguns sinais:

  • O valor e o modelo de multinacionais apresentam-se em queda;
  • Os políticos e as organizações que criaram o sistema capitalista pós II Guerra Mundial não só não respondem com eficácia aos problemas económicos e sociais atuais como, em muitos casos, são a causa desses problemas;
  • O regresso a realidades políticas e sociais anteriores à denominada globalização, isto é ao protecionismo, de que são exemplo o Brexit e a eleição de Trump;
  • Uma preferência por consumo vintage, quer do ponto de vista de recuperação de marcas, quer de modelos.

O marketing e as marcas não ignoram esta realidade que constitui uma dupla oportunidade: por um lado o retorno ao clássico, por outro a possibilidade de alavancar a sua credibilidade através do cumprimento de uma função social.

No retorno ao clássico temos o exemplo da comemoração dos 90 anos de Super Bock recuperando uma embalagem e imagem clássica/vintage.

No que respeita à credibilidade, temos o exemplo da campanha da Stela Artois relativamente à Global Water Crisis.

Esta campanha é um exemplo paradigmático de que as marcas estão a cumprir funções sociais, para as quais as organizações politicas não tem capacidade de resposta. A ineficácia de organizações e de políticos, conjugada com uma consciência empresarial de necessidade de partilha de valor, muito bem identificada e explicada por Michael Porter, coloca as marcas e as empresas num patamar de credibilidade e de responsabilidade que há muito não tinham.

Para aproveitar este valor precioso, as marcas necessitam de transparência nas suas intenções e de realizar ações que realmente partilhem valor.

Esta é uma oportunidade para procurar a diferenciação num papel social, identificando lacunas na ineficácia dos políticos e das organizações e acrescentando um valor social real que terá de ir além da proposta de valor centrada nos produtos e nos serviços.

Há muito para realizar. Mãos à obra e bom trabalho.

  • Artigo escrito em 2017

Os Fogos e as Marcas Território

Os Fogos e as Marcas

No passado mês escrevi sobre as marcas território e a arquitetura enquanto elemento configurador da marca e da experiência dos stakeholders. Nesta última semana, a relevância das marcas território cresceu significativamente, uma vez que estas sofreram uma massiva destruição de vidas e de valor, facto que justifica voltar ao tema; desta vez com enfoque nos fogos, o elemento destruidor de valor.

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Se a arquitetura é muito relevante em território urbano, a natureza, mormente a floresta é o em território rural. O papel da natureza é, como a vida, múltiplo. Esta não só faz parte de um ecossistema que permite o desenvolvimento e manutenção da vida, como ainda é um elemento essencial para o desenvolvimento da atividade económica, seja ela agricultura ou turismo.

Já desde os anos 90, com o relatório Porter, que se sabe da importância de alguns clusters agrícolas (vinho e floresta) para economia nacional. Por exemplo, no cluster do vinho, a marca território é muito relevante, uma vez que a região configura as características do produto e por isso é uma das variáveis de decisão de compra.

No que respeita ao turismo, atividade que tem sido um dos motores da economia nacional, este tem vindo a crescer no espaço rural (segundo o Pordata a oferta subiu 30% nos últimos 10 anos), mas muito ainda existe para crescer na dinamização dos nossos recursos naturais.

Os fogos que assolaram Portugal, foram uma desgraça que ceifou vidas e destruiu o tecido económico. Os efeitos destruidores são, do ponto de vista da natureza, muito semelhantes ao de uma guerra.

Depois de tal nível de destruição, o País (sociedade e estado) apenas tem como alternativa a reconstrução. É aqui que está uma enorme oportunidade de geração de valor. Se trabalharmos de forma integrada, alavancando os elementos diferenciadores das nossas marcas território, concretizamos oportunidades de mercado e melhoramos Portugal.

É pois importante garantir não só a sustentabilidade ambiental, mas também reconstruir por forma a estender a atratividade turística de Portugal a todo o seu território, garantindo infraestruturas, oferta atrativa e paisagem atraente e tranquilizante.

Em respeito à memória dos que pereceram nesta desgraça, temos a obrigação de transformar a dor numa oportunidade e construir um País melhor. Mãos à obra.

O Que Mudou na Construção de Marca?

O que Mudou na Construção de Marca?

Construir marca é, de forma simplificada, desenvolver e valorizar a imagem da marca junto dos stakeholders e facilitar as transações. Para o efeito é necessário ter definido um posicionamento, a partir do qual se desenvolve uma estratégia. Para executar a estratégia é necessário tempo e dinheiro (recursos).

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Hoje, é necessário menos tempo e menos recursos, não só porque a multiplicidade e o custo dos meios de comunicação mudou, mas também porque essa construção é agora feita, em comunidade, e cocriação com os consumidores e restantes stakeholders.

Anteriormente as atividades de marca poderiam ser classificadas de estratégicas ou de trade; sendo as primeiras as atividades cujos efeitos se faziam sentir no longo prazo e portanto mais ligadas às perceções e à criação de valor; e as segundas mais relacionadas com os aspetos promocionais ou de transação. Hoje a realidade não pode ser classificada desta forma porque a criação de valor implica um relacionamento constante com o consumidor, invadindo e mudando a lógica de relacionamento promocional.

Este relacionamento constante reveste-se de características de comunicação distintas de anteriormente e, por consequência, requer diferentes competências. Hoje, uma marca comunica numa relação biunívoca, isto é, recebe e dá feedback, e fá-lo num ambiente de comunidade, necessitando para isso, de adotar um tom de comunicação humano, genuíno e humilde; ou seja em posição de igualdade com os outros membros da comunidade.

Sendo a marca uma entidade abstrata e intangível, a possibilidade de a humanizar, é uma enorme oportunidade de criação de valor, mas implica o desenvolvimento de um storytelling de personalidade e dos consequentes conteúdos (conversas) que a materializam.

É todo um Admirável Mundo Novo na comunicação.

  • Artigo escrito em 2017

Back to the Basics

Back to the Basics

Construir marca é, de forma simplificada, desenvolver e valorizar a imagem da marca junto dos stakeholders e facilitar as transações. Para o efeito é necessário ter definido um posicionamento, a partir do qual se desenvolve uma estratégia. Para executar a estratégia é necessário tempo e dinheiro (recursos).

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Numa época em que a velocidade aumentou significativamente as expectativas quantos aos tempos de interação entre marcas e clientes, e em que canais e touchpoints proliferam e complexificam exponencialmente esta realidade, aumenta o risco de, por querermos responder em velocidade, esquecermos o essencial.

Diferenciação, relevância e posicionamento são a base e chave para o sucesso de qualquer marca.

Definir a diferenciação de uma marca implica um estudo comparativo com as restantes marcas concorrentes no mercado, com vista a identificar ou a criar os elementos diferenciadores da marca.

Para obtermos relevância junto dos nossos stakeholders é necessário estudarmos as suas preferências e interesses, para que a criação dos elementos diferenciadores seja cumulativamente distinta da concorrência e importante para os stakeholders.

Uma vez identificados os elementos de diferenciação relevante de uma marca, importa comunicá-los para que os stakeholders os percecionem corretamente; criando assim uma imagem da marca na sua mente, o que mais não é que posicionamento.

Dito assim, tudo parece fácil. Na realidade não é. Já não era no passado, e agora com a complexidade referida, o desafio torna-se maior. Contudo não adianta avançar com atividade massiva da marca, senão tivermos o básico definido, pois será um desperdício de energia e recursos.

As Marcas Território e a Arquitetura

As Marcas Território e a Arquitetura

As marcas território são um ativo muito relevante para as comunidades que representam e para os países onde estão inseridas. Para as comunidades enquanto elemento agregador e distintivo que consubstancia a sua identidade e permite a sua comunicação e afirmação na sociedade. Para os países, porque permitem a diferenciação e a valorização turística.

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Sou da opinião que uma das variáveis mais importantes na gestão destas marcas, senão a mais importante, é a arquitetura, uma vez que é um elemento que muito contribui para a tangibilidade da marca. Ela configura simultaneamente, embalagem e produto e contribui para a perceção de qualidade da oferta da marca território.

A arquitetura ordena o território e cria espaços e percursos, quer no espaço público, quer em edifícios, que podem ser fruídos numa ótica funcional ou numa ótica lúdica e estética.

Esta função da arquitetura é determinante para a qualidade de vida das comunidades, para a preservação da identidade histórica e para economia; assim como para a experiências dos turistas.

Muitas vezes, certos edifícios ou monumentos, são o logo ou elemento de comunicação das marcas território. Por exemplo a torre Eiffel em Paris. Aliás este monumento é também exemplo de que um forte investimento na arquitetura tem um elevado retorno; pois uma obra de 1889, mais de 120 anos depois, continua com filas de espera para ser visitada.

Em Portugal destruiu-se muito o território, construindo sem ordenamento, sem sentido estético e sem visão de longo prazo. Esses tempos, penso, que passaram, embora o lobby da construção ainda seja muito influente na política e na economia. Hoje autarcas, governantes, instituições e empresas compreendem o valor acrescentado da arquitetura; exemplo disso é o trabalho efetuado em cidades como Viana do Castelo ou a construção do Maat pela EDP.

Enquanto cidadãos temos a responsabilidade de participar e exigir que as marcas território sejam geridas numa logica de construção de valor e não para servir interesses que aproveitam a muito poucos. Somos, por consequência, “gestores” das marcas território.